Por Márcio Martins
10 de janeiro de 2026
Somos dotados de cinco sentidos fundamentais,visão, audição, olfato, paladar e tato, por meio dos quais construímos nossa relação com o mundo. Desde a infância até a vida adulta, desenvolvemo-nos a partir de experiências sensoriais contínuas, que moldam nossa percepção, nossas emoções e nossos estados mentais.
Nesse percurso, estamos em constante integração com o “Todo”, aqui compreendido como o Mundo ou o Planeta, entendido, em diversas culturas originárias, como a Mãe dos seres viventes, o grande corpo externo que sustenta a vida. De forma natural, estabelecemos uma conexão silenciosa e invisível com o ecossistema e com o ambiente no qual estamos inseridos.
Essa conexão pode ser compreendida como uma interação permanente entre energia vital, percepção e consciência, em diálogo contínuo com o macrocosmo. O ser humano, enquanto microcosmo, percorre sua jornada em meio a inúmeros estímulos ao longo da vida, convivendo com outros seres, humanos e não humanos, e compartilhando sua existência com diferentes reinos da natureza.
A mente moderna e o distanciamento do momento presente
Nos tempos contemporâneos, marcados pela intensa mediação tecnológica e por uma sobrecarga constante de informações veiculadas por telas e redes digitais, seguimos nossa trajetória frequentemente capturados pelas distrações do mundo externo. Esse excesso de estímulos contribui para que nos afastemos da experiência de estar plenamente presentes.
Do ponto de vista neurocognitivo, a mente tende a automatizar processos como forma de economia energética. Trata-se de uma arquitetura mental adaptativa e inteligente, desenvolvida para lidar com a complexidade e os excessos dos modos operantes do pensamento. No entanto, quando esse automatismo predomina, perdemos a capacidade de vivenciar o momento presente com consciência e profundidade.
Com o passar do tempo, afastamo-nos da vivência do “ser uno”. Deixamos de investir na atenção plena, no viver com plenitude e no contato genuíno com o “aqui e agora”. Gradualmente, o lúdico e o encantamento, tão presentes na infância, vão sendo substituídos por uma relação mais mecânica e acelerada com a vida.
Quem não se recorda do entusiasmo na infância diante de experiências simples, porém profundamente significativas? A curiosidade espontânea ao observar um beija-flor pairando no ar; a alegria ao ouvir o canto do bem-te-vi; a sensação de paz ao sentir o perfume de uma roseira no jardim; o prazer de saborear uma fruta madura colhida da mangueira da praça; andar descalço, brincar com os animais de estimação, sentir o sol, a brisa ou até mesmo ao se divertir na chuva.
É bastante provável que, ao ler esses exemplos, memórias afetivas positivas tenham sido ativadas.
Resgatar a atenção plena é possível
Nunca é tarde para resgatar essa integração com os efeitos salutares da vida. Perceber e sustentar a atenção no momento presente abre caminhos para mais saúde mental, equilíbrio emocional e bem-estar geral. A prática contínua da atenção plena contribui, inclusive, para a modulação da atividade cerebral e para a plasticidade neural, favorecendo a formação de novas redes de conexões mais adaptativas e saudáveis.
A seguir, apresento algumas sugestões práticas que podem ser incorporadas à rotina diária, mesmo que por períodos breves.
Práticas de atenção plena mediadas pelos sentidos
Mental
Reserve cinco minutos para meditar na respiração lenta e consciente. Durante a prática, observe os pensamentos sem se apegar a eles, permitindo que venham e passem.
Benefício: favorece o estado de presença, a autorregulação emocional e a conexão com a dimensão interior.
Visual
Realize caminhadas em ambientes naturais, como parques, bosques ou áreas menos urbanizadas. Escolha um ponto de foco visual — uma paisagem no horizonte, o nascer ou o pôr do sol, ou um elemento da natureza, como uma árvore. Observe-a com calma, da raiz à copa. Caso surjam sons ou movimentos, como o canto de um pássaro, direcione sua atenção plena para essa experiência.
Benefício: promove sensação de bem-estar, tranquilidade e redução do estresse.
Audição
Escolha um momento para ouvir músicas clássicas, orquestradas ou sons meditativos da natureza. Com os olhos fechados, pratique a escuta ativa, identificando instrumentos, variações de timbre, tons graves, médios e agudos. Permaneça atento durante toda a duração da música.
Benefícios: redução do estresse e da ansiedade, liberação de dopamina e endorfina, melhora do humor, da concentração, da criatividade, da memória e da capacidade de aprendizado.
Olfato
Os aromas naturais das flores exercem influência positiva sobre o bem-estar físico e mental. Estimulam o otimismo, contribuem para a purificação do ambiente e podem fortalecer o sistema imunológico. Considere cultivar um pequeno jardim ou utilizar vasos com plantas aromáticas como lavanda, alecrim, camomila, hortelã e manjericão.
Estudos em aromaterapia indicam benefícios no manejo da ansiedade, da dor e dos distúrbios do sono, além de potenciais efeitos positivos sobre a cognição, especialmente em pessoas idosas.
Paladar
Reflita sobre seus hábitos alimentares. Como afirma o senso comum, “somos aquilo que comemos”. A alimentação exerce impacto direto sobre a saúde física, emocional e sobre a qualidade de vida. Evite alimentos ultraprocessados, ricos em gorduras e açúcares, e priorize o consumo de água, frutas, legumes e verduras.
Comer com atenção, saboreando cada alimento, também constitui uma prática meditativa e uma oportunidade de exercitar a gratidão.
Tato
Caminhar descalço sobre a terra ou a grama, em parques ou praças, fortalece a conexão com a natureza e promove sensação de bem-estar. Durante essa prática, procure afastar-se de dispositivos eletrônicos, exercitando o desapego e o autocuidado.
Atividades manuais, como artesanato, ou aprender a tocar um instrumento musical, também estimulam o tato e outros sentidos, promovendo benefícios cognitivos, melhora da memória, da coordenação motora, da concentração, da autoestima e do bem-estar geral.
Dica de leitura
As coisas que você só vê quando desacelera
Haemin Sunim, Mestre Zen-budista sul-coreano.
Sobre o autor
Márcio Martins é Designer e Analista de Marketing, com mais de 20 anos de atuação na área de publicidade. É estudante e entusiasta das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), com cursos livres em Reiki, Cromoterapia, Aromaterapia, Meditação Mindfulness, Programação Neurolinguística (PNL) e estudos sobre Espiritualidade. Atualmente, é pós-graduando em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness.


